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Lutheria

Captadores - Conhecendo

Edilson Hourneaux, 16 de Julho de 2009

O que é:
Um captador eletromagnético é um transdutor.
Um transdutor é qualquer dispositivo que transforma um tipo de energia em outro tipo de energia.
Assim como o alto-falante que transforma a energia elétrica em energia cinética, o captador transforma energia cinética (movimento das cordas) em energia elétrica.

Para que serve:
Para amplificar o som das cordas.
O corpo de uma guitarra sólida não tem condições de amplificar acusticamente o som produzido pelas cordas.
No começo do século XX, as big bands estavam se tornando comuns e, devido ao grande número de integrantes, o som dos banjos, lap-steels, madolins e violões estava se perdendo em meio aos outros instrumentos.
A acústica desses instrumentos ficava cada vez menos eficaz e a alternativa elétrica para a amplificação se tornava cada vez mais real.

Como funciona:
Antes de mais nada, é bom relembrar que a guitarra produz pulsos elétricos que são gerados pelo captador e, passando pelo circuito todo, são enviados ao amplificador que transformará estes pulsos em som.
Logo, o “som” que ouvimos ou tiramos da guitarra nada mais é do que eletricidade.
A diferença entre um timbre e outro está nas variações das características do pulso elétrico gerado pelo captador.

Vamos rever algumas conceitos básicos de física:
Um físico chamado Michael Faraday, após muitas pesquisas e experimentos com bobinas, criou a Lei de indução de Faraday que, de maneira muito resumida, diz que “a variação do campo magnético através de uma espira (fios de cobre da bobina) induz o surgimento de um campo elétrico na espira”.
Em outras palavras, um imã se movimentando perto de uma espira produz nela um fluxo elétrico.



As flechas vermelhas indicam o pulso elétrico percorrendo a espira.

O captador é, de uma maneira geral, um fio de cobre enrolado com algumas milhares de voltas ao redor de um imã, que gera um campo magnético ao redor deste conjunto.



O imã do captador está imóvel em relação ao fio de cobre da bobina e, segundo Faraday, se não existe movimento entre a bobina e o imã, não existe corrente elétrica.
Então como o captador gera pulsos elétricos?
O imã do captador gera um campo magnético envolvendo-o completamente, inclusive a região por onde passam as cordas, exatamente acima do captador.

Como as cordas são de metal, elas são polarizadas pelo campo magnético do captador e passam a fazer o papel do imã que se movimenta perto da espira, descrito por Faraday. Ou seja, as cordas são os agentes geradores de corrente elétrica na espira do captador.



Quando as cordas são tocadas, elas vibram e, graças ao campo magnético existente nas cordas, a movimentação destas polaridades perto da espira do captador gerará uma corrente elétrica alternada.

Por quê corrente alternada?
Por que a aproximação de um pólo magnético em uma espira gera uma corrente elétrica em um sentido. O afastamento deste mesmo pólo magnético da espira gera uma corrente elétrica no sentido contrário.
Isso significa que os pulsos elétricos gerados em uma espira (bobina) de captador alternam o sentido, horário e anti-horário, na mesma velocidade de vibração da corda.



Cada corda possue uma frequência de vibração específica.
Entenda por frequência a quantidade de vezes que uma corda vibra por segundo. Esta é medida em Hertz, ou Hz.
A frequência será traduzida em altura da nota. Frequências maiores resultam em notas mais agudas. Frequências menores resultam em notas mais graves.

Por exemplo:
Um LÁ em 440Hz significa que aquela corda vibra 440 vezes por segundo.
Vibrando nessa velocidade, a corda, que está polarizada pelo imã do captador, se aproximará e se afastará 440 vezes por segundo do captador.
Em outras palavras, em um segundo, na bobina do captador, 440 pulsos elétricos serão gerados no sentido horário e 440 pulsos elétricos serão gerados no sentido anti-horário.
O mesmo conceito se aplica para um LÁ 880Hz (uma oitava acima) ou qualquer outra frequência.

Particularidades:
Os primeiros protótipos de captadores foram desenvolvidos no início da década de 1920 por Lloyd Loar, um engenheiro e luthier que trabalhou na Gibson neste período.



O primeiro instrumento a utilizar um captador foi um lap steel fabricado por Adolph Rickenbacker no ano de 1930, batizado de “Frying pan”, ou “Frigideira”.



Eddie Durham foi o primeiro guitarrista a utilizar uma guitarra elétrica. A idéia já tinha sido concebido por ele em 1931, mas somente 4 anos depois, integrando a Jimmi Lunceford's band, Durham usou uma guitarra elétrica, fazendo covers de Harold Arlen's Hittin' The Bottle, em Kansas City.

A primeira guitarra a ganhar oficialmente um captador foi uma Gibson ES-150, utilizada por Charlie Christian, em 1936. O captador que equipou a ES-150 ficou conhecido com Charlie Christian Model.



A polêmica sobre a primeira gravação feita com uma guitarra elétrica gira em torno de George Barnes e Eddie Durham. Ambos gravaram canções em março de 1938.

O primeiro instrumento de corpo sólido a receber um captador elétrico foi o “Pau-elétrico”, em 1942, construído em Salvador, Bahia, pelos músicos baianos Adolfo Nascimento (Dodô) e Osmar Macedo: um braço de cavaquinho com um captador rústico instalado em sua base.

Em 1955, Seth Lover inventou o primeiro captador humbucker (Hum=ruído, Bucker=cancelador), onde 2 bobinas cancelam o ruído característico dos captadores com 1 bobina.
Para isso, as bobinas têm que estar numa situação conhecida como RPRW (Reverse Polarity, Reverse Wound), ou seja, inversão na polaridade do imã e no sentido dos fios.

Normalmente, a ponta do fio que será o positivo do captador está alinhada com o pólo norte do imã:



A bobina vizinha que cancelará o ruído terá a ponta oposta do fio como positivo e, consequentemente, o imã será invertido para realinhar o pólo norte com seu positivo:



Mesmo os humbuckers ainda geram um pequeno ruído.
Para solucionar de vez essa questão, surgiu o captador ativo, que é um captador como qualquer outro, apenas com uma quantidade muito pequena de voltas na bobina (De 1000 a 3000 voltas aproximadamente. Um single coil standard tem, aproximadamente, 6000 voltas).
A redução de fio na espira diminui o sinal drasticamente, diminuindo também o nível de ruído.
Nesta situação, o amplificador não teria condições de “reconhecer” algum pulso elétrico significativo enviado pelo captador.
Para isso, é adicionado entre o captador e o amplificador um componente chamado “pré-amplificador”, com a função de amplificar o sinal do captador o suficiente para que seja reconhecido pelo amplificador, porém, mantendo o ruído muito baixo, num nível praticamente insignificante.

As propriedades de cada componente determinarão a sonoridade do captador.
- Imã:
·    Cerâmico: Normalmente é feito de bário ou estrôncio. Tende a ser mais ríspido e sua vida útil é muito prolongada. Preço mais baixo.
·    Alnico: Liga metálica de Alumínio, Níquel e Cobalto. Soa mais cristalino e sua vida útil é menor e o custo é maior.

- Carretel:
·    Carretéis que isolam (separam) o fio da bobina dos imãs colaboram para uma saída mais baixa e grave. Fios em contato com o imã (maior proximidade) proporcionam maior saída e mais agudos.
·    Carretéis baixos distribuem o campo magnético pelo trecho de corda acima do captador, colaborando para timbres mais graves. Carretéis altos concentram o campo magnético no trecho de corda acima do captador, proporcionando sons mais agudos.



- Pólos:
·    A função dos pólos é propagar o campo magnético do imã até as cordas. Quanto mais fiel for essa propagação, mais ganho terá o captador. Pólos com maior densidade e/ou com dimensões maiores colaboram para maior indutância.

- Fios:
·    Quanto maior o diâmetro do fio, menor será a resistência e o timbre será mais agudo. Fios com diâmetro menor possuem mais resistência, gerando timbres mais graves.
·    Quanto maior for a bobina, maior será a indutância e o enlaçamento magnético, gerando saída mais forte e mais ganho. Bobinas menores diminuem a indutância, gerando sinal mais fraco e com ganho menor.
·    Fios com enrolamento tensionado produzem timbre mais definido. Bobinas frouxas produzem sons mais macios, podendo embolar e até gerar apitos ou zumbidos conhecidos como “wolf tones”.

- Localização:
·    Posição da ponte:
Nesta região, a amplitude de movimento da corda é menor, proporcionando um sinal mais fraco. Para compensar esse fato, os captadores da posição da ponte possuem mais voltas na bobina e imã mais forte, proporcionando saída mais alta, em comparação com o captador do braço.
·    Posição do braço:
Os movimentos das cordas nessa região são mais amplos, gerando naturalmente um sinal mais forte. Os captadortes para essa posição possuem menos voltas na bobina e imã mais fraco, resultando numa saída mais fraca, comparada com o captador da ponte.

Unidades de medidas e definições:
- Resistência: É a dificuldade imposta pelo fio da bobina do captador à passagem de corrente elétrica.
A resistência funciona como uma espécie de filtro de agudos. Quanto maior a resistência, menos agudos. Menos resistência, mais agudos.
Os fatores que influenciam na resistência do captador são o diâmetro e o comprimento do fio.
·    Maior diâmetro, menor resistência.
·    Menor diâmetro, maior resistência.
·    Maior comprimento, maior resistência.
·    Menor comprimento, menor resistência.
A unidade de medida da resistência é o “Ohm” e nos captadores, encontramos alguns milhares de “Ohms” ou “Kilo Ohms” ou “K Ohms” ou simplesmente “K”, podendo haver uma variação de 1K até 20K, aproximadamente.

- Indutância: É a capacidade de um material magnetizado (no nosso caso, a corda da guitarra) de gerar (induzir) pulsos elétricos em uma bobina.
A indutância determinará a quantidade de saída (ou ganho) do captador.
·    Quanto maior a indutância, mais forte o pulso elétrico e, consequentemente, mais forte o som.
·    Menor indutância, som mais baixo e fraco.
Os principais fatores que influenciam na variação da indutância são a quantidade de massa da bobina como um todo e a força do imã. Se a bobina possuir mais massa (seja pela quantidade maior de voltas ou pelo diâmetro maior do fio), a indutância será maior. Menos massa da bobina resultará numa indutância baixa.
Um imã mais forte gerará maior indutância.
A unidade de medida da indutância é o “Henry” e os valores de indutância num captador podem variar de 2 Henries a 10 Henries,  aproximadamente.
 
- Tensão: É a velocidade com que a eletricidade percorre o fio da bobina e é medida em Volts.
No caso dos captadores, a tensão é medida em alguns milésimos de Volts, podendo variar de 150 mVolts até 400 mVolts, aproximadamente.
A variação da tensão acompanha a variação da força magnética indutora, ou seja, as cordas magnetizadas da guitarra.
·    Cordas magnetizadas mais intensamente produzirão um pulso elétrico com mais tensão e, consequentemente, mais saída e ganho no sinal.
·    Cordas pouco magnetizadas produzirão menos tensão nos pulsos elétricos, gerando sinal com menos ganho e saída.

- Gauss: É a força magnética do imã e é medida em quantidade de linhas de fluxo magnético presentes no imã.
A variação da força magnética influenciará a indutância e a tensão do captador.
·    Quanto maior a força magnética, mais forte será o sinal.
·    Imã mais fraco gera sinal mais fraco.

Dicas:
- Supere a idéia de que captadores bons são importados e caros. A indústria nacional alcançou um nível de excelência, fabricando captadores dignos de concorrência com qualquer outro do mundo.
Algumas empresas nacionais de respeito:
www.malagoli.com.br
www.sergiorosar.com
www.cabrerapickups.com
www.stellfner.com.br

- Procure saber as suas necessidades antes de escolher um captador. Muitas vezes, independente da qualidade, escolhemos o captador errado para o que queremos.
Captadores para heavy metal são muito diferentes de captadores para jazz ou para blues.
Uma boa dica é conhecer o equipamento de algum músico que seja referência na música que você toca.

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Edilson Hourneaux

Sobre o autor

Edilson Hourneaux

Edilson Hourneaux começou a tocar guitarra em 1984. É formado nos cursos do IG&T, Setup, Homestudio I e atualmente cursa o LEM (Leitura e Estruturação Musical), todos na EM&T. Também é formado no curso de luthieria para guitarra e contrabaixo e no momento, faz o curso de construção de violões, ambos na B&H Guitar Craft School. É guitarrista e atua profissionalmente com luthieria desde 2002. Também é editor do Guia de Guitarra no SobreSites.com e mantém o site de sua empresa, a Bass'n'Guitar Luthieria.

contato@hourneaux.com
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