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Escola inova ao aplicar ensino de música em todas as disciplinas

Escola mostra que a possibilidade de ensino através da música é maior do que aquilo que o ensino tradicional contempla (Divulgação/Intellectual Take Out)

Uma escola infantil localizada na região central da Inglaterra amargava as últimas posições de uma lista que media a qualidade do ensino das instituições. Na tentativa de superar as defasagens históricas, a diretoria resolveu aplicar um método de ensino inovador: atrelar o ensino de música à todas as disciplinas.

O projeto ousado foi uma aposta alta dos educadores da Feversham Primary Academy para saíram da posição de lanterna no ensino britânico. Apesar de não ser tão recente, esse método de atrelar música e aprendizado é pouco conhecido de muita gente.

Os educadores se inspiraram na “abordagem Kodály”, desenvolvida por Zoltán Kodály (1882-1967). Essa teoria propõe que a experiência musical seja ensinada pela observação, pela repetição e por movimentos corporais, por meio do canto e de jogos musicais.

“Kodály foi um dos teóricos que viu uma importância clara sobre a implementação do folclore em suas aulas. Ele desenvolveu um sistema chamado solfejo (leitura musical cantada), no qual o aluno memorizava as notas através de movimentos e figuras. E a base dessa técnica pode ser atrelada ao aprendizado de outras disciplinas”, explica o professor e pesquisador de Música da UFMG, Marcos Mello.

Para tanto, todo o currículo foi reformulado para que as crianças aprendessem o conteúdo usando de todas os benefícios que a música pode oferecer. As aulas de história, da era vitoriana aos vikings, contam com trilha sonora temática sobre a época. Nas aulas de matemática, o ensino de geometria é feito com quebra-cabeças ao som de música clássica, enquanto as primeiras fórmulas são aprendidas com palmas e canto.

Esses processos ativam a memória e facilitam no aprendizado – além de deixar as crianças mais interessadas pelo conteúdo. Cyrilla Roswell, especialista no método no Reino Unido, explica à BBC Brasil: “É semelhante à forma como aprendemos a linguagem: inconscientemente, observando e repetindo (os adultos). Daí, cabe aos professores ensinar às crianças as vibrações e batidas (da música). É uma mescla de prática, teoria e uso oral da música”.

Além do currículo básico, os alunos ainda contam com aulas semanais de música e artes dramáticas. O foco é na cultura britânica, então, nomes que vão de Shakespeare a The Beatles são vistos pelos alunos. Como grande parte deles é de origem muçulmana, os alunos também veem canções típicas da cultura islã.

Jimmy Rotheram, diretor musical da escola Feversham, explica a estratégia: “Ao aprenderem música, elas aprendem a se expressar, a pensar, a socializar e a serem autoconfiantes. A atmosfera na escola mudou, e as crianças se tornaram mais felizes e criativas”, contou para a BBC Brasil.

Toda a modificação funcionou muito bem e a escola virou pauta em diversos jornais por vencer as barreiras da qualidade do ensino por meio da música. O The Guardian fez uma matéria especial sobre a instituição com o título: “Como melhorar os resultados escolares: por meio da música”.

ENSINO APLICADO À REALIDADE DA REGIÃO

Para quem leu esta matéria até aqui e está pensando que essa estratégia “só funciona no primeiro mundo”, é importante levantarmos um fato. A Feversham esteve por muito tempo nas últimas posições por motivos que vão além da qualidade do ensino: a escola fica numa região degradada, com alto índice de criminalidade – não muito diferente da realidade que vemos na América do Sul. E outro aspecto dificultador na realidade de lá é que grande parte dos alunos são imigrantes, ou seja, o inglês não é a língua nativa de muitos estudantes.

Segundo o diretor, os métodos tradicionais simplesmente não funcionavam nem para o contexto social da escola e nem para a idade dos alunos. O desafio, desde o início, era fazer os pequenos despertarem o gosto pelos estudos.

Dada as devidas proporções econômicas e sociais de cada país, pode-se dizer que o contexto brasileiro favoreceria o ensino de música na educação infantil. O problema é que a Inglaterra já tem uma cultura forte no ensino de música – e a música, no Brasil, sempre foi categorizada como externa ao aprendizado, sendo relacionada quase sempre a entretenimento.

O estudante de licenciatura em música pela UFMG, Lucas Kappaun, vê com pessimismo a possibilidade de algo do tipo ser aplicado nas nossas escolas. “Estudos como o da abordagem Kodály existem já algum tempo, e comprovam que a música desenvolve estimula mais o cérebro e outras atividades. O problema mesmo é implementar essas estratégias no currículo da edução infantil do Brasil, porque a aula de música e o ensino das artes em geral nunca foi valorizado por aqui”, pondera.

Ou seja, esta é só mais uma prova de que o ensino de música desde a educação de base poderia ajudar – e muito – no processo de aprendizado das crianças, e fazer com que ela cresça já tomando gosto pelos estudos.

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