Velha Sortica
Dari Sortica
Sentada perto fogo, ouvindo o chio da chaleira
Num dia frio se aquentava, em silêncio, a parteira
Cuidava de todo mundo, fora também benzedeira
Agora estava parada e, apesar de adoentada, sorria muito
faceira
Já fazia muitos anos que não enxergava nada
Tinha perdido a visão, mas a mente era aguçada
Aconselhava pro bem, detestava coisa errada
Contava muita história, conservada na memória intocada e
equilibrada
Vovó Maria, dai-nos bênção
Somos teus netos, és nosso chão
Somos herdeiros, Dona Punica
Do teu carinho, velha Sortica
Se casou bastante cedo com um moço caprichoso
Por ser negra e ele branco, o início foi custoso
A mãe dele lhe tratava de um modo até maldoso
Esqueceram a senhora e depois foram embora viver o amor
teimoso
Tomaram um trem de linha para um pago estimulante
Na bagagem pouca coisa, mas tinham sonho gigante
De bem criar onze filhos numa casa aconchegante
Apesar de trabalhar e de muito se esforçar esse lar ficou
distante
Uma história que contava perto do fogo de chão
É que quando se anunciava a chuva, pelo trovão
Ela corria lá fora e juntava algum torrão
Que para dentro trazia, e aos poucos consumia com grande
satisfação
Ela jurava que vira, numa noite que exconjura
Sentado em cima do poço, uma estranha criatura
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