Ficamos horas a brincar sob a noite serena de verão
sentindo a leveza do futuro na ponta dos dedos
a confiança do absoluto
e a alegria do presente em estrofes perdidas nos
confins dos séculos
num espantoso enlace com a beatitude
e as ideias terríveis
que nos assaltam o cérebro num faíscar de exaltação
demente
como se o desejo fosse magia
na vertigem dos carros roubados para ir até à praia
como se o sangue que corre mais forte em crescendos de
angústia
pudesse encharcar a terra e florir num outro espaço.
Vertigem
Depois estendidos no recato das dunas
a memória dos dias olvidada em agulhas rombas
ouvimos o jazz abrir a imaginação para deleites crueis
e labirintos obscuros
despertando monstros escondidos
esvoaçando vampiros sanguinários por entre as sombras
da realidade
num orgasmo de gritos sufocados e silêncios
circulares
a droga que nos ilumina a mente
em torrentes de lava e espasmos descontrolados
a encher a noite de fantasmas longínquos e rodopios
sonoros
o latido dos cães
num sarcasmo de conto de fadas.
Vertigem
Tudo é negro menos os nossos olhos
Página 1 / 2que dardejam luz no estupor da montanha incendiada
pelo sol levante
já os nossos risos nervosos
soltos na velocidade da paisagem
desfilam para trás num bater de asas aflito e
assustado
e o velho saxofone
como sereia rouca em calores de perdição
num sobressalto de vagas repentinas
abafa o chiar dos pneus
imprimindo correrias loucas ao granito macio da
estrada
com que o mar cava a areia até aos nossos pés.
Vertigem
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