Sombras disformes dançam
No coração atento
Nada desperta o sono
Concebido em veneno
O afeto paciente
Jaz na porção que finda
O enterro da semente
Que brotará distinta
Dá às ondas a canção
Casa as bocas com cegueira
Nas estações que virão
Lodo empola as rochas negras
Desprendendo-se de si
Para os lábios flui a alma
Decadência do sentir
Brevemente despejada
Língua funesta e vermelha
Como o sangue do luar
Saliva, mas não vê presa
E devora o que encontrar
Garra feroz
Ventre faminto
Canto sem voz
Do fogo ao limbo
Capítulo do ter
Mistério do existir
Que chora sem porquê
E, sem motivo, ri
O espasmo vem da brisa
Caótico e disperso
E guia a rebeldia
Pelo vão do universo
No corpo, seu ser expande
Desabrocha em grito puro
Morreremos em um transe
Para um renascer futuro
Reflete a imagem do céu
Sob os galhos que arranham
Move-se ao sopro cruel
Da fome de cada entranha
O meu eu, a se quebrar
Torna enigma o que se expôs
Não é sobre o que será
Mas sobre o que, há muito, foi
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