Nem tudo que cala Desaparece Às vezes Só muda de lugar No princípio não tem eu, só pulsão sem tradução Um corpo atravessado pela língua do outro em construção O desejo não é meu, ele vem de fora, atravessa Sou efeito de um discurso que me nomeia e me confessa Entre falta e fantasia vou tentando me costurar O que não pôde ser dito Começa a me habitar Recalque não é esquecimento, é memória disfarçada Um resto mal resolvido pedindo forma na estrada O sintoma não é erro, é mensagem comprimida É o inconsciente achando fresta pra falar da ferida E no meio do conflito entre o que quero e o que dá Nasce a tal da estrutura que sustenta o meu lugar Não é escolha, nem roteiro que eu escrevi É o modo que o desejo encontrou pra existir Neurose tenta esconder Psicose deixa escapar Perversão sabe o jogo E decide sustentar É lei, é falta, é querer É o que não dá pra tapar Somos feitos de desejo E ele sempre vai falar Na neurose tem conflito, tem lei internalizada O desejo vem travado, culpa sempre do meu lado O sujeito se divide entre o pode e o não pode E o sintoma vira ponte pro que a censura não resolve Recalque é o mecanismo que mantém tudo em segredo Mas o corpo dá um jeito de vazar o enredo Histeria fala em cena, obsessão calcula dor Cada ato é uma tentativa de domesticar o amor Na psicose a coisa é outra, a lei não foi inscrita O Nome-do-Pai não veio, a realidade se agita Não tem recalque operando, é foraclusão no lugar O que ficou de fora volta sem pedir pra entrar Delírio não é falha, é tentativa de amarrar Um mundo que sem borda começa a desmoronar O sujeito cria sentido onde o simbólico faltou É invenção necessária pro que nunca se estruturou Na perversão tem saber, mas também tem encenação O sujeito não recua diante da interdição Ele conhece a lei Mas dança na sua beira Faz do outro instrumento na sua própria maneira Não é ausência de regra, é relação calculada Com o gozo e com a falta sendo ali manipulada Sustenta o desejo do Outro como cena principal É teatro bem montado de um pacto estrutural Entre o que falta e o que insiste em voltar A gente inventa um jeito de se organizar Não existe sujeito fora dessa tensão É na rachadura que nasce a canção Neurose tenta esconder Psicose deixa escapar Perversão sabe o jogo E decide sustentar É lei, é falta, é querer É o que não dá pra tapar Somos feitos de desejo E ele sempre vai falar No fim Não somos o que pensamos que somos Somos O que insiste em nos atravessar E talvez Escutar isso Já seja um começo