Pedro, Meu Filho...

Vinicius de Moraes

Composição de: Vinicius De Moraes
Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã 
indispensável: Um quintal de terra verde onde corra, quem 
sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples 
onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu 
pai apaixonado - a insensatez de um coração constantemente 
apaixonado.
E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te
 quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse 
alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com 
os frutos da minha mais dolorosa poesia.
Da mesma forma que eu, muitas noite, me debrucei sobre o 
teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as 
minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as 
divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas 
para a tua.
E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo 
separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde 
destruir.
Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e 
cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, 
e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem 
rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro 
em que acreditei acima de tudo.
E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu 
fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas
 as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi;
 em tuas palmas as queimaduras do infinito que procurei 
como um louco tocar.
Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu 
sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.
E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna 
interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me 
foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca 
encontrei, e cuja descoberta ora te peço.
Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas
 estreitas veredas da madureza, e o sol que se põe atrás de
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 mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao 
tenebroso norte.
E a morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero 
ter medo de ir ao seu inesperado encontro.
Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não 
precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em
 cujos vórtices te haverias também de perder.
E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus
 olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais 
gritavas; e quanto mais cego, mais vias.
Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos 
braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a
 todas as mulheres que por ela abandonei.
E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para 
que ninguém tivesse mais que lutar:
Assim é o canto que te quero cantar, pedro meu filho...
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