O relicário de vidro foi aberto sob a luz do crepúsculo Entreguei as chaves dos jardins de minha ancestralidade As heranças do sangue, os sussurros que a parede guardava Mas a mão que acolheu o segredo portava a lâmina do eclipse O solo sagrado da minha casa foi arado com o sal da calúnia E o trigo que alimentava o orgulho secou antes da colheita O inverno desceu sobre a alma, e as portas se fecharam por dentro O silêncio tornou-se o único teto contra o vento da decepção Anos arrastaram-se como cinzas em um altar abandonado A amargura destilava seu licor escuro em minhas veias Afastando o mundo, sepultando o verbo, apagando o farol Então, a semente antiga rompeu o asfalto do meu deserto Minha filha, com as mãos feitas de aurora e o olhar do recomeço Puxou-me do abismo de espelhos onde eu me assistia quebrar Ela trouxe o vento que limpa a poeira das janelas esquecidas Levantei-me, mas os passos ainda eram trôpegos no chão de vidro O peso do ontem exigia um cajado, um norte, uma bússola exterior Aproximei-me do altar dos guias, buscando a cura para a cicatriz antiga Depositei minhas fraquezas aos pés daquele que prometia a rota Mas o farol que deveria guiar os barcos na tempestade Era apenas um espelho apontado para o próprio Sol de sua vaidade A segunda queda ecoou no vale, o abraço do mentor era uma teia E a traição vestiu a capa da falibilidade para justificar o veneno Mas como confiar? Em pessoas que foram enviadas para nos ajudar? São apenas homens, que decidem como anjos e não com espírito Sim, apenas homens, buscando a coroa na poeira da imperfeição A lição final não foi escrita com a tinta do ódio, mas com a lucidez do fogo Olho para as mãos vazias e percebo o templo que ainda habito As feridas duplas são marcas de quem ousou navegar em mares turvos O erro não foi estender a mão, mas esquecer que até as estrelas guias São feitas da mesma matéria frágil que queima e se apaga no cosmos