A vida passa em tecido de água
Risca o tempo na pele do dia
E a gente veste um Sol provisório
Sem saber onde a noite termina
A beleza é punhal em luz oblíqua
Corta o instante e não deixa aviso
Dança breve na curva do espelho
E se perde no fundo do riso
A juventude é fogo sem cerca
Vento aceso na carne do agora
Arde alto, desconhece a medida
Até que o próprio ardor se devora
A alma escuta o que o corpo esquece
Fala baixo por trás do ruído
É um mar que não cabe nos olhos
É um nome que nunca foi dito
A força nasce do que se quebra
Feito vidro que aprende a cantar
Quanto mais o mundo nos curva
Mais profundo é o jeito de estar
O amor é um idioma sem dono
Um clarão na garganta do escuro
Quando tenta caber na palavra
Já transborda em silêncio maduro
A razão desenha fronteiras
Com régua fria sobre o infinito
Mas o destino ri dessas linhas
E reescreve o mapa do grito
Somos feitos de um sopro que insiste
De um quase que nunca se encerra
O destino não mora na linha
É travessia sem margem na terra
Somos água tentando ter forma
Somos chama aprendendo a durar
E no meio do que não se explica
A vida nos gasta pra nos revelar
E no fim, se é que há fim, é mistério
Não se fecha o que é feito de ir
A beleza retorna em outras mãos
E o amor muda o jeito de existir
Assim segue o fio invisível
Entre o pulso e o que há de depois
Não sabemos o nome do porto
Mas o mar reconhece quem foi
No meio do que não se explica
A vida nos gasta pra nos revelar
No meio do que não se explica
A vida nos gasta pra nos revelar
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