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Só surubinha de Leve: reflexões sobre algo que não deve se repetir

MC Diguinho faz barulho com o funk Surubinha de Leve (Foto: Internet)

Neste começo de 2018, a música Só Surubinha de Leve, do funkeiro carioca MC Diguinho, está entre os assuntos mais comentados no cenário musical do brasileiro. Puxado pelo hit lançado no final de 2017, visando vencer a corrida para ser o grande Hit do Verão, o artista chegou a estar entre os mais tocados nas plataformas de streaming e viu a canção figurar entre os assuntos mais buscados no Google.

No Letras.mus.br, um dos maiores sites de letras de música da América Latina, a música só não é mais procurada do que a faixa Que Tiro Foi Esse?, da também funkeira Jojo Maronttinni. Em um acervo composto por 2,5 milhões de letras, a versão original de Só Surubinha de Leve chegou a ser a segunda mais acessada.

Versão original chegou ficar entre as mais buscadas no Letras.mus.br (Foto: Internet)

Tamanha audiência, no entanto, é motivada pelo teor polêmico da letra da música. Escrita com termos chulos e palavras de baixo calão, o refrão sugere a seguinte sequência de atos:

Só uma surubinha de leve, surubinha de leve/Com essas filha da puta/Taca a bebida, depois taca a pica/E abandona na rua

Para o senso comum, a música é um amontoado de versos que além de ultrapassar o limite do razoável, representa misoginia e o crime de apologia ao estupro. Aos olhos da lei, no entanto, na letra de Só Surubinha de Leve, o artista exerce o seu direito de “liberdade de expressão”, conforme explica o advogado mineiro Luís Letra.

O autor inicialmente goza da liberdade de expressão, prevista no inciso IX, do artigo 5º da Constituição Federal de 1988, mas não é um direito absoluto que pode ser usado e invocado de forma irrestrita. Vale lembrar que o direito em questão originalmente é uma resposta ao que ocorrera em períodos anteriores, especialmente na época da Ditadura Militar, época em que ocorreram diversos casos de censura, especialmente das músicas de cunho político. Atualmente, superada a censura de músicas por cunho político, tem-se por um limitador atual da liberdade de expressão artística o ilícito – como no presente caso, no qual podemos estar diante do crime de Apologia ao Crime, contudo, estabelecer os limites entre a liberdade de expressão e o ilícito demanda muita análise e dialética, não só em âmbito jurídico, mas também se valendo de aspectos sociais e culturais. Certamente, em eventual proibição de execução da música, o artista impugnará tal decisão com fundamento na sua liberdade de expressão, o direito constitucional que naturalmente se contrapõe à restrição

Já o coletivo Feminismo Sem Demagogia (FSD), que conta com mais de 1 milhão de likes no Facebook, entende que a letra da música é uma narrativa totalmente voltada ao incentivo do estupro. O FSD também traça um paralelo entre o contexto de Só Surubinha de Leve e o caso da jovem que foi estuprada por um grupo de 30 homens, no Rio de Janeiro, em 2016.

A música demonstra obviamente os passos de uma ação criminosa. Atraem as mulheres para a cena do crime, tiram-lhes a consciência embriagando elas e depois usam seus corpos para sexo sem consentimento, de forma coletiva. Não faz muito tempo que nós vimos isto acontecer, o caso da adolescente de 16 anos que foi vítima de estupro coletivo por 30 homens é um exemplo do crime exposto na música

FSD e Arrumando Letras entendem que música de Diguinho é ofensiva (Imagem: Reprodução/ Internet)

Para a equipe da página Arrumando Letras, criada para corrigir letras de conteúdos inapropriados, que tem mais de 250 K de seguidores no Facebook, além da mensagem explícita no refrão, a polêmica em torno de Só Surubinha de Leve é um pouco mais preocupante. Para Camila Queiroz, moderadora da página, a demagogia em torno de uma eventual relativização da letra não pode ganhar força.

Por mais que as discussões sobre o quanto o machismo fere e mata mulheres todos os dias, ainda estamos muito longe de desconstruir a cultura do estupro instaurada em nosso país. Prova disso é que muitas pessoas tentaram relativizar o ato descrito na música, dizendo que a revolta daquelas que criticaram a letra era mimimi. O próprio cantor disse que aquela é “a realidade dele” e não via nada demais na música. Isso assusta. Não é – e nunca poderá ser – normal embriagar uma mulher para transar com ela e abandoná-la na rua. É estupro. É crime. Falar disso como se fosse algo legal, em uma música alegre, dançante, é um total desrespeito a todas as mulheres, sobretudo às vítimas desse crime terrível

Em razão das inúmeras denúncias, as plataformas de streaming decidiram banir a música. Graças ao grau da repercussão negativa, Mc Diguinho lançou uma “versão light” para Só Surubinha de Leve. Na letra modificada, o artista desconstrói um pouco os versos polêmicos.

Só uma surubinha de leve, surubinha de leve/Com essas mina maluca/Taca a bebida, depois taca e fica/Mas não abandona na rua

Para o Arrumando Letras, não há maneiras de tornar a letra da música digerível. “Nós só riscamos a letra toda, não corrigimos nada. Nosso desejo é que letras como essa nem existam, por isso, não cabe retocar nada”, afirma Camila. Fazendo coro com a página, o FSD entende que a intenção do funkeiro é apenas uma solução paliativa para um problema bem maior.

Uma vez que nas suas postagens no Twitter o Mc deixa bem claro que não se arrepende da letra e que ela retrata uma realidade que considera ‘sem problemas’, essa versão light só será feita para ele não perder o momento, já que a original foi banida da mídia. Então é só um modo de dizer que não importa nada além do que ele quer impor

Diguinho lançou clipe para letra editada da música (Foto: Internet)

A voz do público fez com que a letra original fosse banida, além de provocar no artista a necessidade de lançar uma versão alternativa para a música. Para Luís Letra, a opinião pública pode gerar reflexos ainda maiores a respeito da propagação da polêmica mensagem presente na música.

Sabe-se que o clamor popular tem grande potencial de influência, inclusive pode influenciar o Ministério Público, que é o responsável legal para, neste caso, propor a denúncia, sendo que a Apologia ao Crime é crime sujeito à ação pública incondicionada. Entretanto, há de se considerar também que existe o clamor social do lado oposto, daqueles que aceitam, e até gostam, de músicas do tipo, o que pode fazer com que a liberdade de expressão, atrelada com a aceitação social de determinados tipos musicais, façam com que tal conduta não seja considerada como criminosa. Vale lembrar que o bem jurídico tutelado pelo crime de Apologia ao Crime é a chamada “paz pública”, e não propriamente o bem jurídico tutelado pelo crime narrado nos versos, portanto, o clamor social pode ser fundamental para se caracterizar, ou não, o crime

A música Só Surubinha de Leve surgiu em um momento em que a grande mídia atravessa sua melhor fase de aceitação para com o funk, em razão do diálogo sonoro que a música de Anitta, Ludmilla e vários outros artistas promovem com a música pop internacional e o sertanejo moderno. É preciso ter cuidado para que a polêmica música de Mc Diguinho não seja usada para como símbolo de adeptos do estilo funkeiro.

É imprevisível o futuro da versão editada de Só Surubinha de Leve (Foto: Divulgação)

O que o futuro reserva para o caso Só Surubinha de Leve ainda é uma incógnita. Pode ser que a “versão light” se torne o hit do verão, mas também é possível que a antipatia do público sepulte a carreira do MC Diguinho. Enquanto isso, nós só precisamos praticar o exercício da conscientização e assim evitarmos que mensagens ofensivas tenham forças para ecoarem nas mentes, ouvidos e atos.

Nota da redação: as tentativas de contato que fizemos com equipe do MC Diguinho não evoluíram. Lançando mão de nossa imparcialidade, deixamos as portas do site abertas para que o artista exerça seu direito de resposta.

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